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  • Foto do escritorAndré Sampaio

Máquinas esquecidas

Hoje começamos uma nova rubrica dedicada às nossas máquinas do tempo mais antigas e menos comuns.

Devo dizer que a minha paixão por relojoaria sempre me levou por caminhos, digamos, menos comuns. Não sou grande fã dos mais típicos Speedmaster, Submariner e dezenas de outros que povoam diariamente as redes sociais. Não quer dizer com isso que não os aprecie, antes pelo contrario. Como muitos outros são ricos em herança e historia, simplesmente este universo da relojoaria é tão vasto e diverso que sempre tive a ânsia de descobrir mais sobre aquelas marcas e modelos que apareceram e desapareceram e que de algum modo deixaram a sua marca e razão de terem existido, muitas das vezes com historias extremamente curiosas.


O primeiro modelo que gostava de partilhar aqui hoje, não por nenhuma razão especial de importância, é o Triton Spirotechnique.


Triton Spirotechnique

Um dos primeiros concorrentes no mercado de relógios para mergulho recreativo, a empresa francesa La Spirotechnique, com a sua longa e distinta história em tecnologia subaquática, apresentou o relógio de mergulho Triton em 1963.

No início dos anos 1940, o famoso mergulhador e explorador Jacques Cousteau abordou a empresa Air Liquide, especializada em gás comprimido, para fabricar respiradores subaquáticos. Cousteau e seu parceiro, Émile Gagnan queriam reguladores de ar que pudessem ser acoplados a tanques de gás de ar comprimido para serem usados ​​debaixo de água.

Devido ao sucesso desses primeiros protótipos, a Air Liquide formou a empresa subsidiária, La Spirotechnique em 1946 a fim de produzir em massa reguladores de mergulho. Hoje a empresa é conhecida como Aqua Lung / La Spirotechnique e continua a ser uma das maiores fabricantes de equipamentos de mergulho.



Ao longo dos anos La Spirotechnique contratou vários fabricantes para produzir relógios de mergulho com a sua marca e alguns em parceria com outras marcas para serem vendidos junto com o seu equipamento de mergulho.

A primeira referência foi o 143.100 com três linhas de script acima do marcador das “6” e foi seguido depois pela referência 155.100 com duas linhas acima do “6”. Possui uma caixa de 37 mm de diâmetro com a coroa às "12” e a proteção da coroa articulada fazendo parte do design geral da caixa.

Estes modelos contém um movimento automático ETA 2782 sem gravação da marca.


O Spirotechnique foi desenvolvido a partir dos relógios de mergulho originais, o Blancpain Fifty Fathoms e o Rolex Submariner. No entanto, o Spirotechnique foi feito especificamente para mergulhadores profissionais e militares e era muito mais resistente a profundidade e inovador em design.

As suas especificações e precisão foram projetadas especificamente para as necessidades dos mergulhadores.


Jean René Parmentier (1921-1998) desenhou a caixa, que foi fabricada pela Dodane, dando ao relógio uma aparência imediatamente reconhecível com a coroa colocada às 12 horas. Isso proporcionava uma medida de segurança, garantindo que o mergulhador não prendesse o relógio em algo enquanto estava debaixo de água. O relógio foi um dos poucos na era com certificação de resistência à água até 200 metros, uma das razões pela qual os mergulhadores profissionais escolheram este relógio como ferramenta para seu trabalho. Estas características únicas fizeram com que não fosse vendido só a utilizadores comuns mas também foi escolhido pelos militares que através da francesa Marine Nationale o adoptou como equipamento de mergulho para os seus "demineurs" ou mergulhadores anti-minas se assim os podemos designar, possivelmente ajudado também pela reputação do seu construtor, a Dodane, que também fornecia os militares franceses com o seu cronografo type XX. Desta forma o Triton Spirotechnique passou a fazer parte do equipamento de mergulho destes militares.



As inovações técnicas e características únicas deste relógio eram bem visíveis na coroa às 12 que tinha uma dupla proteção e na possibilidade de vir equipado com 3 lunetas diferentes, cada uma delas específica para uma utilização num determinado ambiente.

Uma graduada em metros com a referência "Marine Nationale Tables G.E.R.S. 1960". G.E.R.S. é a sigla de Groupe d'Etudes et de Recherches Sous-marines fundado no rescaldo da 2ª Guerra Mundial por J.-Y. Cousteau. Este grupo desempenhou um papel importante no desenvolvimento do mergulho profissional, mas também lançou as bases para o mergulho desportivo civil. Assim, por volta de 1959, surgiram as primeiras tabelas de descompressão propostas pelo G.E.R.S. Cada nova tabela tenta corrigir a versão anterior, modificando os parâmetros de acordo com os acidentes observados. O de 1960 é corrigido pelo de 1965 e esse será corrigido pelo MN 90 (Marine Nationale, 1990). À data de produção do relógio era a tabela de 1960 que vigorava.

Outra luneta tinha as inscrições "According to U.S. Navy table" e estava graduado em pés e que seguia exatamente os mesmos princípios.

A outra e mais comum era a graduada em 60 minutos com os intervalos de 10 minutos em indexes sobre dimensionados. As lunetas eram em bakelite com a luminescência providenciada por Radium.


3 tipos diferentes de lunetas usadas pelo Triton Spirotechnique

Patente do sistema exclusivo de coroa do Triton Spirotechnique

Como curiosidade resta referir que em 1963 o Triton Spirotechnique era mais caro que o Rolex Submariner. As suas características técnicas muito especificas, o seu design e o facto de ser vendido em lojas de mergulho e não nas convencionais lojas de relojoaria tornam este relógio muitíssimo mais raro que outros da altura. A sua utilização e desenvolvimento por Jacques-Yves Cousteau e a sua utilização pela Marine Nationale revelam que de facto este relógio foi desenvolvido e utilizado como verdadeira ferramenta de mergulho o que na minha opinião o torna num verdadeiro pedaço de historia com uma herança e raridade muito superior a outros modelos mais cobiçados.




André Sampaio


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